experimentos duma narrativa dançante

chamar oMar dançar em mim

gingar as ondas de ventossal

amaciar a beira dum corpo gigante

delinear o giro duma ilhanau

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experimentos duma narrativa dançante, n’areia quente de Itaparica, Instituto Sacatar, Bahia 2018. frames duma provável videodança. parceria videográfica com o artista visual Lucas Alves. investigação corporal mediada pelo dançarino Manuel Castomo.

para Tereza, uma carta enquanto caminho

 

para Tereza, uma carta enquanto caminho iniciou numa ação de escrita andarilha em ruas de Olinda, PE. na procura por Tereza, saí pela cidade disposta a captar essências e ouvir narrativas protagonizadas / contadas por mulheres dali. fui buscando ressignificar poeticamente memórias de sujeitos femininos que habitam e configuram as geografias daquele lugar. a carta foi exposta na coletiva Tramações 2 – Cultura Visual, Gênero e Sexualidades e prosseguiu no fluxo de intervenções dos leitores visitantes remetentes.

| parceria videográfica com o artista visual Kelvin Marinho.

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quando vovó (me) lê, não sei quem é mais coruja, Tereza.

_ dona Norma, 74 anos, lê seu exemplar do cartas à Tereza: fragmentos de uma correspondência incompleta, v.1, 2015.

primeira edição esgotada, em brevíssimo, nova impressão sai do forno!

11 de junho,

Tereza, parte de mim é uma criança que sai ao terreiro para ver aviões. gosto mais dos dourados. dos que deixam um rastro, feito lesmas. gosto ainda dos silenciosos, que somente por acaso se mostram dispersos no azul. parte de mim ainda é uma criança, Tereza. caminhando distraída no meio do dia. minha avó já chegou numa idade em que confunde, muito facilmente, urubus com aviões – e isso é outra qualidade de infância. os dourados dão sorte, vestem-se de sol quando para mim já é crepúsculo. dourados são poéticos, contemplados num silêncio emudecido, emocionado, olho pros lados e não há cumplicidades – silêncio emudecido. os mais eufóricos são os sonoros, alardeiam passagem, me arrancam da casa, dos afazeres, despem minha idade crescida. fazem festa no meu sorriso incontido, aérea no meio do terreiro, os olhos pregados no tempo, a ignorância dos seus paradeiros, os aviões efêmeros, raros, raríssimos, sempre tão distantes, alheios à minha inocência sem asas. Tereza, o dia em que fui mais feliz, eu vi um avião (…)

13 de abril,

querido, como vai você?

escrevo numa quinta-feira à tarde, prévia de feriado, eco de pássaros, vento cantando pela minha janela do meio. hoje de manhã se repetiu aquele fenômeno de quase todos os dias de sol: às 06:20, levanto pesada de sono e empurro as três janelas, a luz invade amarelada, todo o quarto fica macio, o fenômeno dura uns quinze minutos, depois disso as paredes voltam a uma luz fria. sei que nenhum outro lugar do mundo terá uma iluminação matinal desta. trato de aproveitar todos os dias em que ainda amanhecerei nesse quarto silencioso, minha avó vendo a missa na cozinha, baixinho para não me acordar, a casa só de nós duas, os primeiros bem-te-vis cantando. sou criatura matutina – gosto da estreia do dia, o primeiro frescor, a produtividade é maior, a vontade de viver é maior, a esperança é maior.

eu também tenho que sorrir enquanto tenho dentes. (…)

{carta nº12}

Oficina de livro de artista

criar / expandir / produzir / costurar o livro – o próprio livrocaderno de artista. Este foi o principal objetivo da oficina ministrada durante o III Sarau da Ilha – Caboclos de Itaparica: na rota da independência, com a participação dos estudantes do Colégio Estadual Democrático Jutahy Magalhães. A atividade consta como mais uma ação da residência artística no Instituto Sacatar.

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andarilla.tumblr.com

Ilha de Itaparica, 16 de novembro

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vento maresia maré cheia, Tereza navega, estanque, o seu semblante mareado, correnteza de sal, fim de tarde, Tereza alerta, marejada – marejada marejada marejada. o ver de mar nos olhos dela, – lá vem a onda Tereza!, mergulha na dor profunda, prende o sopro nos pulmões, o máximo que puder guardar. mergulha na dor,

depois

volta altiva à superfície, brilhando em um sal vivo, escorrendo em sua pele crespa de saudade.

mergulha toda coragem na verdura do que mal conhece, no mistério que nem ela nem ninguém sabe o limite, mistério sem horizonte, mistério sem chão, mistério sem pano de fundo, sem pé nem cabeça.

Tereza amanhece à beira-mar, sem querer sair do porto, à espera ninguém sabe do que – à espera à espera à espera,

Tereza anoitece, Tereza dorme, cochila os seus sonhos mais felizes na barra em que o mar lhe deita, na barra em que o mar lhe acalanta, na beirada surda onde quebram as ondas mais cheias de segredo.

Tereza se prepara para mergulhar na próxima onda volumosa,

na próxima maré alta um salto de cabeça na vida, Tereza. guarda sopro nos pulmões e vai até o fundo

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andarilla.tumblr.com

fotografias_ Kelvin Marinho.

cadê Tereza?

tal pergunta me faz agora atravessar a Baía de Todos os Santos e aportar na Ilha de Itaparica, numa busca persistente.

por onde anda Tereza aqui neste punhado de terra? quais as ruas por onde caminha, quais casas abrigam o seu mistério?

20161019_163429registro AQUI neste novo/paralelo diário de bordo as minhas andarilhagens em procura a Tereza(s) na Ilha de Itaparica – BA.